Quando falamos de picapes grandes no Brasil, três modelos raros de ver nas ruas vêm à mente: Chevrolet Silverado (R$ 539.990), Ford F-150 (R$ 545.000) e Ram 1500 (R$ 579.990). São caminhonetes difíceis de encontrar por aqui, mas, nos Estados Unidos, elas aparecem quase todo dia, algo comum para um público apaixonado e que conta com estradas largas, perfeitas para esse tipo de veículo. Enquanto isso, no Brasil, é outra história: você precisa se virar, já que muitos olham com julgamento, como se dissessem “você está atrapalhando o trânsito com essa bugiganga”.
Mesmo assim, quando se tem um monstro desses nas mãos, no meu caso, não dei a mínima. Estou no meu direito, afinal, essa é a única picape grande da Ram que pode ser dirigida com carteira B, já que a 2500 e a 3500 exigem carteira C, por serem classificadas como caminhões e tem que tomar cuidado o horário que vai andar com elas. E, olha, o modelo impressiona: mesmo sendo a única V6 entre as rivais, que usam V8, ela entrega mais potência e torque, além de chegar a 100 km/h mais rápido.
A reestilização da Ram 1500 chegou ao Brasil em outubro de 2024, com um visual mais moderno na dianteira – nova grade com formato diferente, faróis afilados, novos para-choques, rodas e lanternas traseiras – e a troca do motor, que a deixou mais bonita, porém bem mais cara. Será que vale pagar tanto por essa grandeza que ocupa três vagas na garagem, comparada às rivais? É o que vamos descobrir.
DIMENSÕES E ERGONOMIA
A Ram 1500, por mais que seja muito divertida de guiar, perde bastante em termos de litragem da caçamba. São bons 1.200 litros de capacidade, mas ainda fica abaixo dos 1.370 litros da F-150 e perde de lavada para maior do Brasil, a Silverado, com 1.781 litros de capacidade. Além disso, sua carga útil é bem inferior às rivais, com apenas 557 kg contra 728 kg e 750 kg, respectivamente – abaixo até de uma Fiat Strada, que tem carga máxima de 720 kg. É muito pouco para uma Ram.
No entanto, em termos de dimensões, o espaço interno não poderia ser melhor, já que suas medidas são generosas ao extremo: 5,90 metros de comprimento, 2,06 m de largura, 1,71 m de altura e uma distância entre-eixos de 3,67 m. Os ângulos de ataque (19,1°) e de saída (20,5º), porém, ficam abaixo dos da F-150 (24,3º e 25,3º) e da Silverado (24,8º e 21,6º). Mas tem um segredo nisso tudo que as outras não têm, e vou comentar mais adiante.
Ou seja, o espaço na parte traseira é uma verdadeira classe executiva, bem tranquilo, mesmo com o banco dianteiro todo recuado para trás. Há ainda generosas saídas de ar atrás, com direito até a aquecimento dos bancos traseiros. Para quem precisar trabalhar, tem tomada de 115 volts, duas saídas USB-C e tipo A também. É absurdo, mas nada que suas rivais não tenham. Além disso, o banco central é escamoteável e vira um gigante apoio de braço central para quem vai atrás.
A posição de guiar também é uma cabine de conforto e grandeza absurda, com bancos largos e confortáveis. Como todo bom americano gosta, aqui os pedais podem ser regulados. Os bancos dianteiros têm ventilação e aquecimento, além de ajustes elétricos com suporte lombar. Não dá pra reclamar.
O console central é largo, com espaço suficiente para apoiar os braços, e os botões e funções ficam bem próximos, com uma ergonomia bem ajustada, como deve ser para uma picape desse porte. O baú central abre e tem um espaço de 151 litros – o porta-malas de um Fiat Mobi tem 200 litros. Isso é algo que as rivais não têm, e vale muito a pena.
Só o suporte para carregar o celular é um pouco chato – ele foi feito para segurar o celular e não deixar escorregar em freadas, mas é meio incômodo para colocar o aparelho lá.
A nova Ram 1500 ainda conta ainda com caçamba com revestimento especial, capota marítima, degrau retrátil de acesso e iluminação interna em LED. Além disso, há um divisor de caçamba e dois compartimentos Rambox. Localizados nas laterais da caçamba, cada Rambox possui 107 litros de capacidade volumétrica, além de iluminação interna e uma tomada de 115V no compartimento localizado ao lado do motorista.
MOTORIZAÇÃO
O coração da Ram 1500 2025 passou por uma mudança que, para muitos, deixou a desejar: a saída do clássico motor V8 e a entrada de um seis cilindros em linha. Isso aconteceu por causa das novas regras de emissões nos Estados Unidos, que passaram a exigir que os fabricantes reduzissem as emissões de CO2 e NOx (óxidos de nitrogênio) em picapes grandes, como a Ram 1500.
Para atender a essas normas, a Stellantis, dona da Ram, substituiu o V8 5.7 HEMI pelo novo motor Hurricane de seis cilindros em linha, que é mais eficiente e emite menos poluentes, mas ainda entrega alta potência. Com isso, a nova Ram 1500 vem equipada com o motor 3.0 litros Hurricane 6 a gasolina, biturbo, que rende 426 cv a 5.200 rpm e 64,8 kgfm de torque a 3.500 rpm – antes, o V8 5,7 litros a gasolina entregava 400 cv e 56,7 kgfm de torque.
Ou seja, são 26 cv e 8,1 kgfm de torque a mais. O câmbio é automático com conversor de torque de oito velocidades.
Essa mudança fez a nova Ram 1500 ir de 0 a 100 km/h em 5,3 segundos, contra 6,4 segundos da versão anterior, segundo dados da marca. Nos nossos testes, porém, ela alcançou os três dígitos em 6 segundos. Mesmo assim, não deixa de ser um bom número para uma picape grande de 2.663 kg, a maior entre suas concorrentes, e ainda com o melhor tempo de 0 a 100 km/h na categoria – a F-150 faz em 7,1 segundos, e a Silverado, em 7,4 segundos. Sua velocidade máxima divulgada é de 180 km/h.
Tirando os números de lado e colocando na prática, a Ram 1500 2025 impressiona em vários aspectos, principalmente para quem valoriza potência e resposta rápida. As acelerações estão claramente mais ágeis do que o modelo anterior, e isso se deve ao novo motor Hurricane 6, que agora é produzido com um bloco de alumínio fundido, mais leve e eficiente.
O sistema biturbo, com dois turbocompressores – cada um ligado a três cilindros do motor de seis cilindros em linha –, também ajuda na entrega de potência mais imediata e linear, eliminando o atraso típico de turbos (o chamado “turbo lag”). Esses turbos são do tipo twin-scroll, o que melhora o fluxo de gases e aumenta a eficiência, permitindo que o motor alcance picos de torque em rotações mais baixas.
Isso faz com que a Ram 1500 tenha respostas vigorosas e bem sensíveis ao pisar no acelerador. A força chega com tudo, de forma quase instantânea, tornando as acelerações empolgantes e as ultrapassagens extremamente seguras e fáceis, mesmo com a picape carregada. Além dela ser bem estável mesmo em velocidades mais altas, sem oscilações da carroceria ou sentir a caçamba tremendo muito.
O câmbio automático com conversor de torque também trabalha em perfeita harmonia com o conjunto, sem deixar a desejar em nenhum momento. As trocas de marcha são suaves e rápidas, e o sistema permite que o motorista limite as marchas manualmente pelos botões no volante, o que é muito bom para situações como subidas íngremes ou transporte de cargas pesadas.
Em curvas, a Ram 1500 também efetua de forma bem firme na trajetória com grande estabilidade sem apresentar sair de traseira, com pouca rolagem da carroceria, um grande mérito da suspensão que trabalha bem firme nessas situações. Já os freios, por mais que parem bem a Ram, é preciso pressionar mais forte do que o normal para parar, porém mesmo assim consegue fazer a mais de 2 toneladas e meia parar bem.
No off-road, barro, terra, íngreme, incrível como a suspensão trabalha de forma adequada em diversas situações. Ao lado direito do volante, há um seletor da tração (4X2, 4X4 automático, 4X4 High e reduzida) e todos trabalham bem. Precisa de mais tração, coloquei no automático e passou e todos atoleiros de forma tranquila e a suspensão trabalhando muito bem com certo conforto dentro da cabine.
Em casos mais específicos até elevei a suspensão, que é a Active-Level, onde bolsas de ar substituem as molas que o condutor consegue mudar pela parte inferior do multimídia — são cinco níveis: Normal, para uso do dia a dia; Aero, quando a suspensão abaixa 15 milímetros para dar mais estabilidade no ciclo rodoviário, por exemplo; Off road 1 e Off road 2, onde utilizei em situações mais extremas com diversos barrancos.
Esses modos utilizam um limite de velocidade que até pode usar ele. Por fim, o modo Exit/Entry ajuda a entrar e sair da cabine ou carregar e descarregar a caçamba. Veja altura livre dos modos:
- Normal – altura padrão para uso cotidiano, com 209 mm de altura do solo;
- Aero – suspensão baixa 15 mm automaticamente acima de 100 km/h, visando melhoria no coeficiente aerodinâmico;
- Off-road 1 – eleva o vão livre para 238 mm. Funciona até 65 km/h;
- Off-road 2 – altura do solo chega a 260 mm e funciona até 40 km/h;
- Entry/Exit – ajuda para entrar ou sair da cabine e facilita a colocação ou retirada de cargas na caçamba, deixando um vão livre de 156 mm.
Já na cidade é até difícil de falar porque realmente está muito longe do habitat natural dela. Algo enorme, gigante de andar por aí, mas nesse caso não tem jeito, mesmo em ruas apertadas. Nessas horas as câmeras 360 ajudam muito.
A suspensão mesmo que firme absorve bem os impactos sem dificuldade e traz uma maciez dentro da cabine na rodagem. O que deixou, e muito a desejar, foi a falta do sistema Auto Hold, por tudo que oferece, seu porte e preço, isso, nunca que poderia faltar, na Ram 1500. Além disso, os vidros não sobem sozinhos ao trancar e as travas das portas traseiras também não são automáticas.
Um ponto que pode ser bom para um e ruim para outros é o som do V8, que está nitidamente muito mais silencioso. A nova Ram 1500 você pouco ouve o seis cilindros em ação, já que em rotações baixas e até um pouco mais altas, há um silêncio muito firme dentro da cabine. Então não espere aqueles roncos altos porque não tem. Além do isolamento na estrada ser ótimo, sem barulho de vento ou rodagem do pneu, super silenciosa.
Há também novidade na linha 2025, que são os modos de condução selecionados através de comandos no volante. São cinco modos ao todo: automático, reboque, sport, neve e off-road.
CONSUMO
O consumo a diesel da RAM 1500 foi de 4,6 km/l na cidade de São Paulo e 7,3 km/l na estrada. Com tanque generoso de 125 litros, o painel mostrou autonomia entre 730 e 750 km. De acordo com o Inmetro, a 1500 faz 6 km/l na cidade e 7 km/l no rodoviário.
INTERIOR
A Ram não economizou na qualidade do acabamento, que é macio por toda parte, seja nas portas, tabelier e painel, ainda o bom gosto de mistura de cores bege com marrom e mistura de couro com suede nessa versão Laramie. A Night Edition tem a mesma lista de equipamentos, só com mudanças visuais em preto e no interior.
A picape ainda oferece painel de instrumento totalmente digital de 12,3 polegadas, head-up display, central multimídia de 14,5” (antes era de 12”), 19 altos-falantes Harmon Kardon com subwoofer de 900 watts de potência, ar-condicionado digital de duas zonas com bancos dianteiros ventilados ou aquecidos, carregador de celular por indução de dois celulares, 11 portas USB, sendo 5 do tipo C, de carregamento rápido e duas tomadas 115V.
Também há a solução bem interessante para visão traseira com retrovisor interno digital que, ao ser acionado, exibe a imagem em tempo real de uma câmera voltada para trás. Também há teto solar panorâmico.
Em segurança, a nova 1500 oferece piloto automático adaptativo com tecnologia Stop & Go, alerta de frenagem automática com frenagem automática de emergência, assistente de faixa, assistente de ponto-cego, alerta de tráfego cruzado, reconhecimento de faixas, seis airbags (dianteiros de múltiplo estágio, laterais dianteiros, e de cortina frontal e traseiro) assistente de partidas em rampas; freios a disco nas quatros rodas com ABS e EBD; e controle eletrônico de estabilidade, de tração e de mitigação de rolagem da carroceria e sistema de comutação automática dos faróis, além do sensor crepuscular e de chuva.
As cores disponíveis para as duas versões são: Granito Crystal, Prata Billet, Azul Forged, Preto Diamond e Branco Marfim. Já a cor Vermelho Delmonico é exclusiva da versão cromada.
RESUMO DA ÓPERA
A RAM 1500 2025 provou que segue com uma identidade forte para brigar no topo entre as picapes grandes no Brasil, trazendo um motor V6 que entrega um desempenho forte e vigoroso, na estrada e até fora de estrada, além de um conforto primoroso e muita tecnologia – é, sem dúvida, a mais equipada entre as rivais. Só que o preço salgado, sendo a mais cara da categoria, e o ronco do motor, que mudou e ficou mais contido, podem decepcionar os puristas que esperavam o som clássico de um V8.
Outro ponto que pode pesar contra é a capacidade de carga, que fica atrás das concorrentes – algo que, mesmo não sendo prioridade para muitos compradores, é um detalhe importante para uma picape. A versão com detalhes em preto (Night Edition), que é R$ 15 mil (R$ 594.990) mais caro que a tradicional, também não faz muito sentido.
Porém ao todo se mostra a picape grande mais firme e consistente entre as rivais em diversos quesitos e cativa quem procura potência, conforto e tecnologia
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Motor: Diant., longitud., seis cilindros em linha, 3.0, biturbo, gasolina
Potência: 426 cv a 5.200 rpm
Torque: 64,8 kgfm a 3.500 rpm
Câmbio: automático, oito marchas, tração 4x4
0 a 100 km/h: 5,3 segundos
Consumo (Inmetro): 6 km/l (urbano) e 7 km/l (rodoviário)
Suspensão diant.: indep., braços sobrepontos e traseira eixo rígido; molas pneumáticas
Freios: discos nas quatro rodas; ventilados
Pneus: 275/70 R20
Caçamba: 1.200 litros
Capacidade de carga: 557 kg
Ângulo de entrada: 19,1
Ângulo central: 19,5
Ângulo de saída: 20,5
Tanque: 125 litros
Peso: 2.663 kg
DIMENSÕES
Comprimento: 5,90 metros
Largura: 2,02 m
Altura: 2,06 m
Entre-eixos: 3,67 m